domingo, 16 de novembro de 2008

AI, AI, AI, SE TODOS FOSSEMOS PSICOLOGOS....

A não aprendizagem em uma escola é uma das causas do fracasso escolar, mas a questão é, em si, bem mais ampla. Considera-se como fracasso escolar uma resposta insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola. Essa questão pode ser analisada e estudada por diferentes perspectivas: A DA SOCIEDADE, A DA ESCOLA E A DO ALUNO.
Na primeira é a mais ampla e de certo modo permeia as demais: o tipo de cultura, as condições e relações político-sociais e econômicas vigentes, o tipo de estrutura social, as ideologias dominantes e as relações explícitas ou implícitas desses aspectos com a educação escolar. No diagnóstico psicopedagógico do fracasso escolar de um aluno não se podem desconsiderar as relações significativas existentes entre a produção escolar e as oportunidades reais que determinada sociedade possibilita aos representantes das diversas classes sociais. Assim, alunos de escolas públicas brasileiras provenientes das camadas mais baixa renda da população são freqüentemente incluídos em “classes escolares especiais”, considerados pertencentes ao grupo de possíveis “deficientes mentais”, com limites e problemas graves de aprendizagem. Na realidade, lhe faltam oportunidade de crescimento cultural, de rápida construção cognitiva e desenvolvimento da linguagem que lhes permita maior imersão num meio letrado, o que, por sua vez, facilitará o desenvolvimento da leitura e da escrita.
Por outro lado, as condições socioeconômicas e culturais, terão, também, influência nos aspectos físicos dos alunos de camadas de população de baixa renda pelas conseqüências no período pré-natal, assim como a exposição mais fácil a doenças letais, acidentes, subnutrição e suas conseqüências.
A segunda perspectiva diz respeito à análise da instituição escola, em seus diferentes níveis, como sendo a maior contribuinte para o fracasso escolar de seus alunos. A escola não é isolada do sistema socioeconômico, mas, pelo contrário, é um reflexo dele. Portanto, a possibilidade de absorção de certos conhecimentos pelo aluno dependerá, em parte, de como essas informações lhe chegaram, lhe foram ensinadas, o que por sua vez dependerá, nessa cadeia, das condições sociais que determinaram a qualidade do ensino. Termina a rota da “deficiência social” nas baixas oportunidades do aluno como pessoa, acrescidas da baixa qualidade da escola.
“triste é a escola que não acompanha o mundo de hoje, ignorando aquilo que seu aluno já vivencia fora dela. Transforma aquele que inteligentemente a questiona e que saudavelmente se recusa a buscar um conhecimento parado no tempo num portador de problema de aprendizagem”
A terceira perspectiva de estudo do fracasso escolar está ligada ao aluno enquanto aprendente, isto é, especificamente às suas condições internas de aprendizagem, focando-se, assim, a questões na intra-subjetividade. O fracasso escolar é causado por uma conjugação de fatores interligados que impedem o bom desempenho do paciente (aluno-aprendente), embora se tente identificar, em alguns casos, um ponto inicial no nível interno ou externo.
A aprendizagem normal dá-se de forma integrada no aluno, no seu pensar, sentir, falar e agir. Quando começam a aparecer “dissociações de campo” e sabe-se que o sujeito não tem danos orgânicos, pode-se pensar que estão se instalando dificuldades na aprendizagem: algo vai mal no pensar, na sua expressão, no agir sobre o mundo. É hora de pesquisar por onde está começando a fratura.
Na prática diagnóstica é necessário levar em consideração alguns aspectos ligados às três perspectivas de abordagem do fracasso escolar.
→ ASPECTOS ORGANICOS relacionados à construção biofisiológica do sujeito que aprende. Alterações nos órgãos sensoriais impedirão ou dificultarão o acesso aos sinais do conhecimento. A construção das estruturas cognoscitivas se processa num ritmo diferente entre os indivíduos normais e os portadores de deficiência sensoriais, pois existirão diferenças nas experiências físicas e sociais vividas. Diferentes problemas no sistema nervoso central acarretarão alterações na linguagem e poderão ou não causar problemas de leitura e escrita.
→ ASPECTOS COGNITIVOS estaria ligado basicamente ao desenvolvimento e funcionamento das estruturas cognoscitivas em seus diferentes domínios. Incluir nessa grande área também aspectos ligados à memória, atenção, antecipação, etc, anteriormente agrupados nos chamados fatores intelectuais. Numa visão piagetiana, o desenvolvimento cognitivo é um processo de construção que se dá na interação entre o organismo e o meio. Se esse organismo apresenta problemas desde o nascimento, o processo de construção do sujeito sofrerá alterações no seu ritmo. Por exemplo, a criança com grande baixa visual terá seu processo de construção do espaço complicado, pois suas experiências com o mundo físico ficam diferentes das crianças com visão normal.
→ ASPECTOS EMOCIONAIS estariam ligados ao desenvolvimento afetivo e sua relação com a construção do conhecimento e a expressão deste através da produção escolar. Remete aos aspectos inconscientes envolvidos no ato de aprender. O não-aprender pode expressar uma dificuldade na relação da criança com a sua família; será o sintoma de que algo vai mal nessa dinâmica. Não conseguir calcular e em geral...
→ ASPECTOS SOCIAIS estão ligados à perspectiva da sociedade em que estão inseridas a família e a escola. Incluem, além da questão das oportunidades, o que já foi comentado, o da formação da ideologia em diferentes classes sociais. A busca do conhecimento escolar, recorte do acervo de uma cultura, servirá para quê? Permitirá uma definição de classe? Permitirá uma ascensão social? Será um meio para melhoria das condições econômicas? Responde a uma expectativa de classe? Essas e outras questões necessitam ser pensadas durante o diagnóstico. Por exemplo, quando a família tem possibilidade de escolher a escola para seu filho, ela o faz visando à manutenção de sua ideologia. A escola que finge aceitar a diversidade cultural constrói nessas crianças a baixa auto-estima, o sentimento de inferioridade que carregam para outras escolas ditas mais fáceis. Isto acontece porque, na realidade, não fazem dentro da escola modificações curriculares e pedagógicas que auxiliem a criança menos favorecida a ter uma ascensão no conhecimento.
→ ASPECTOS PEDAGÓGICOS contribuem muitas vezes para o aparecimento de uma “formação reativa” aos objetos da aprendizagem escolar. Tal quadro confunde-se, às vezes, com as dificuldades de aprendizagem originadas na história pessoal e familiar do aluno. Aqui se inclui a metodologia de ensino, à avaliação, à dosagem de informações, à estruturação de turmas, à organização geral, que influindo na qualidade de ensino, interferem no processo ensino-aprendizagem. Ficam diminuídas, assim, as condições externas de acesso do aluno ao conhecimento via escola. Concordamos com Vigotsky (1989) quando enfatiza que o único bom ensino é o que adianta ao desenvolvimento.
Uma boa escola deveria ser estimulante para o aprender; por essa razão, concordamos que a função básica dos profissionais da área de educação deveria:
a) melhorar as condições de ensino para o crescimento constante do processo de ensino-aprendizagem e assim prevenir dificuldades na produção escolar;
b) fornecer meios, dentro da escola, para que o aluno possa superar dificuldades na busca de conhecimentos anteriores ao seu ingresso na escola;
c) atenuar ou, no mínimo, contribuir para não agravar os problemas de aprendizagem nascidos ao longo da história pessoal do aluno e de sua família.

A idéia básica de aprendizagem como um processo de construção que se dá na interação permanente do sujeito com o meio que o cerca. Meio esse expresso inicialmente pela família, depois pelo acréscimo da escola, ambos permeados pela sociedade em que estão. Essa construção se dá sob a forma de estruturas complexas.
BIBLIOGRAFIA DO RESUMO
WEISS, Maria Lucia L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 10ª ed., Rio de Janeiro: DP&A, 2003

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